Dois
Eu votei dois. Eu, assim como você, recebi os e-mails descrevendo a opressão moral e política que constitui desarmar a população e comparações entre governos que o fizeram. Eu, como você, li a revista Veja (tendo também, como você, o conhecimento de que o dono da folha é exportador de armas). Eu, assim como você, sei do interesse que os Estados Unidos têm em proibir o comercio de armas aqui, pois isso impediria a exportação de armas do Brasil (um dos maiores exportadores de armas leves para os EUA). Mas as semelhanças também não param por aí. Eu também fui partidário ferrenho do um. Mas eu mudei de idéia.
Toda a filosofia do ‘um’ gira em torno da realidade maniqueísta que divide o mundo entre “bandidos X cidadãos-de-bem”. Não quer dizer que todos pensem nessas palavras, eu sempre achei isso ridículo mesmo quando era partidário do um. Mas de alguma forma, é indiretamente nisso que se baseia o raciocínio. Todo mundo sabe que não fará diferença na pratica para a maioria da população, mesmo porque já fizeram medidas provisórias que resolveram as possíveis diferenças que a votação poderia fazer. Todo mundo sabe que “bandido” só compra arma ilegal. Na verdade, cidadão de bem também compra arma ilegal, mas enfim.
É ridículo achar que a questão diz respeito a especificamente se você vai votar no “direito à vida” ou contra “o desarmamento do cidadão de bem”. Não é tão simples assim. Na minha opinião, a campanha do desarmamento consegue ser mais imbecil do que a campanha contra ele. Mas ambas são quase completa e integralmente retardadas. Mas depois de toda essa reflexão besta e introdutória, eu vou dizer o que me fez mudar de idéia.
Votar pelo direito do cidadão de bem em ter uma arma, é acreditar na existência de um grupo “cidadão de bem” e incluir-se nele. Eu não acredito em cidadão de bem. Nem em bandido. Eu acredito em potenciais bandidos e potenciais cidadãos de bem. Não acredito que fará nenhuma diferença votar dois, mesmo que eu tivesse alguma esperança de vitória. Nem estou discutindo conceitualmente o impacto do desarmamento se ele fosse efetivar-se. É puramente conceitual.
E tudo fica muito simples quando você para de pensar de forma maniqueísta em cidadãos de bem e bandidos. Quando caiu a ficha pra mim, eu me dei conta que os “bandidos” vão continuar com armas, quer agente vote um ou dois. Mas quem não é “bandido”, ou seja, quem ainda não cometeu crimes, não mora na favela e não é super-explorado pelo sistema, com o desarmamento, ou vai ignorar ou vai se desarmar. Não pode piorar. Na pior das hipóteses, continuam comprando armas quem quer apontar armas pra os outros no transito, para os bandidos que entram em casa e para os filhos atrás das cortinas. Na melhor das hipóteses, menos pessoas terão armas. Eu não separo as pessoas entre “bandidos” e “mocinhos”. Pra mim, gente é gente. E quanto menos gente com arma, melhor.
