A capitalização de Álvares de Azevedo
A galeria do rock que um dia foi underground (em um passado remoto), se transforma no Parque da Mônica durante os fins de semana, agraciada com a presença também crescente dos emos para fechar a casa dos horrores góticos (tem que ter algo contra o que se unir). Os apetrechos de metal cada vez mais caros, já que a molecada paga-pau (termo que sempre me lembra Marcelo D2 e Chorão) pode pagar muito mais do que os verdadeiros góticos, sujos, pobres e marginalizados (porque todo mundo sabe que riquinho não pode ser gótico).
Multiplicam-se injuriosamente os blogs com poesia de qualidade catastrofica ao lado dos blogs-cotidianos-metidos-a-literários (como por exemplo aquele ‘Tá no Papel é Ficção). Um amontoado de palavras ridículas que a fofinha das trevas ouviu em poemas malvadinhos e resolve enfiar uma atrás da outra sem sonoridade ou ritmo nenhum (e sem mesmo saber o que significam as malditas palavras que pegou), sem sentido nenhum, falando de nada (são sempre um climinha tenebroso porque o fundo é sempre preto e as palavras são emotivas, mas fora isso não é nada diferente daquele recurso de filmes de terror péssimos que só conseguem dar susto com um sonzinho agudo sorrateiro inesperado). Wannabe ultra-românticos da pior qualidade, de fazer o Álvares de Azevedo chorar lágrimas de sangue e o Zé-do-Caixão se revirar no Caixão.
Os covers de todas as bandas malvadas possíveis, desde o gótico-pop Marlyn MEISON (como a galerinha cisma em pronunciar sei lá porque motivo) até o gótico-metal, gótico-trash e gótico-gótico tipo Tristanias, Dimmu Borgirs, Cradles of Filth, Childrens of Bodom e etc. fazem shows em todos os antros do capeta.
Menininhas evanescenceadas e nightwhisheadas são atraídas para o lado negro da força e povoam cada vez mais o universo gótico, cada vez mais um movimento de massa e segregacionista, não solidário aos marginalizados como costumava ser.
Se você é um looser no colégio, porque não tem amigos, os caras te zoam e as meninas não te querem, são 2 as suas opções: você pode virar um gótico (se gostar de leituras melosas e malvadas, se for trágico e tiver tendências suicidas porque sua vida é uma merda) ou virar um punk (se não gostar de porra nenhuma e tiver tendências suicidas porque sua vida é uma merda). Um dia foi assim, e os segregados se uniram. Agora os segregados diferentes unidos segregam aqueles que vem do extrato dos segregadores para unirem-se aos ex-párias que se rebaixam ao mesmo nível de opressores nojentos. Se eu sou uma menininha paty bem cuidada e ouço cpm22 não posso me tornar uma gótica, sou totalmente segregada. Quantas vezes eu não ouvi “odeio essas pirralhas que gostam de nightwish e de evanescence”? Nem eu sei dizer. O papinho continua o mesmo, ‘somos os diferentes’. Mas são diferentes todos iguais, grande merda.
E o movimento cresce, todos compram, todos vão a shows e baladas enquanto Byron acha graça, Azevedão chora no tumulo, Zé do Caixão tenta formular alguma frase mas a concordância verbal lhe escapa e ele desiste, Casemiro lambe um pirulito e não tem nada a ver com isso e algumas góticas de verdade (juro que sou gótica!) me convidam pra ir no cemitério pra um passeio vespertino crepuscular.
